“Café do Brasil”: a história da camisa que uniu Pelé, Garrincha, política e economia
Por Fernanda Lima, enviada especial aos EUA
A camisa está exposta na Casa Conmebol, em Miami. Amarela, com um escudo com a inscrição “Café do Brasil”, com ramo de café no centro. À primeira vista, parece uma peça promocional qualquer, mas ela ajuda a contar uma história pouco conhecida sobre a relação entre futebol, política e economia no Brasil dos anos 1960.
Após a conquista da Copa do Mundo de 1958, o governo brasileiro e setores da economia perceberam que a Seleção havia se transformado em uma poderosa vitrine internacional.
Nenhum outro símbolo nacional era tão reconhecido no exterior quanto o futebol de Pelé, Garrincha e companhia. A partir dali, surgiu a ideia de associar essa imagem vencedora ao principal produto de exportação do país na época: o café.
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Pelé como garoto-propaganda e a virada de chave econômica
Um dos principais defensores dessa estratégia foi Athiê Jorge Coury, então presidente do Santos, deputado federal e figura ligada ao comércio cafeeiro. A proposta era simples: aproveitar a popularidade crescente do futebol brasileiro para promover o café nacional em mercados estrangeiros.
A aproximação ganhou força nos anos seguintes. Em 1961, Pelé assinou um contrato com o Instituto Brasileiro do Café (IBC) e se tornou garoto-propaganda do produto. Reportagens da época mostravam o maior jogador do mundo participando de campanhas publicitárias e ajudando a associar a imagem do café à do Brasil.
A Copa do Mundo de 1962 e a jogada de marketing
Com a Copa do Mundo de 1962 se aproximando, o projeto atingiu outro patamar. O IBC investiu recursos na preparação da seleção brasileira para o torneio no Chile. Em contrapartida, o café passaria a fazer parte da estratégia de divulgação da delegação.
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Como a Fifa já impunha restrições à publicidade nos jogos oficiais, a promoção aconteceria em outros espaços. Treinos, entrevistas, eventos promocionais e sessões de fotos passaram a contar com uniformes especiais que traziam o escudo “Café do Brasil”, o mesmo que hoje pode ser visto na Casa Conmebol.
A campanha foi além das camisas. Durante a Copa, o Brasil montou estandes de degustação em cidades chilenas, distribuiu material promocional em diferentes idiomas e realizou ações para apresentar o café brasileiro a torcedores e jornalistas estrangeiros.

Na prática, enquanto a Seleção defendia o título mundial, o país promovia simultaneamente um de seus produtos mais importantes.
O resultado esportivo não poderia ter sido melhor. Mesmo após a lesão de Pelé ainda na fase de grupos, o Brasil conquistou o bicampeonato mundial com atuações históricas de Garrincha.
E, junto com o troféu, o café brasileiro ganhou uma exposição internacional difícil de reproduzir por qualquer campanha publicitária tradicional.
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A relação entre o futebol e o café não terminou ali. Cerca de 20 anos depois, um ramo de café voltaria a aparecer ligado à identidade visual da Seleção, desta vez incorporado ao próprio escudo da CBD.
O detalhe acompanhou a equipe até o início dos anos 1980 e se tornou uma forma discreta de promover o produto brasileiro em uma época de regras mais rígidas para publicidade.
Hoje, a camisa exposta em Miami serve como lembrança de um período em que o Brasil exportava duas de suas maiores marcas ao mesmo tempo: o futebol que encantava o mundo e o café que ajudava a sustentar sua economia.





