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Entre conflitos e sonhos: como a Copa do Mundo mobiliza nações marcadas pela guerra

Maior festa do futebol, a Copa do Mundo pode representar muito mais do que apenas 22 homens correndo atrás de uma bola. Para nações marcadas por conflitos e instabilidade, o evento é uma rara oportunidade de resgatar sentimentos de esperança, pertencimento e unidade nacional.

Classificadas para o Mundial, Haiti, Iraque, Irã e República Democrática do Congo terão a oportunidade de oferecer às suas respectivas populações a possibilidade de sonhar com algo diferente em meio a cenários de violência, tensão e incerteza.

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Embora compartilhem a presença no torneio, as quatro seleções chegam carregando histórias e desafios bastante distintos. O retorno ao principal palco do futebol também tem peso esportivo.

Haiti e República Democrática do Congo disputarão uma Copa do Mundo pela primeira vez em mais de cinco décadas, enquanto o Iraque volta após 20 anos. O Irã, por sua vez, disputará sua terceira edição consecutiva.

O contexto de cada conflito

Os desafios enfrentados por essas nações possuem origens distintas. Os haitianos, por exemplo, sofrem com a violência de gangues em território nacional desde janeiro de 2022.

Mais de 16 mil pessoas foram assassinadas e mais de 1,4 milhão tiveram que deixar suas casas em meio à escalada de ataques. Por questões de segurança, a seleção não joga diante de seu povo há cinco anos.

No Oriente Médio, o Irã está envolvido numa guerra contra Estados Unidos desde fevereiro deste ano, após uma ofensiva aérea contra instalações estratégicas do país. O conflito deixou milhares de vítimas, provocou a morte do líder supremo, Ali Khamenei, e desencadeou uma crise global de combustíveis após o bloqueio do Estreito de Ormuz.

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Já a República Democrática do Congo atravessa uma das mais graves crises humanitárias do planeta. A violência envolve confrontos entre forças governamentais e grupos armados no leste do território, impulsionados pela disputa por minerais estratégicos para a indústria tecnológica, como o coltan e o cobalto, além de rivalidades étnicas históricas e tensões com a vizinha Ruanda.

Homem armado nas ruas da República Democrática do Congo – Foto: AFP via Getty Images

O Iraque, por sua vez, é o único desse grupo que não enfrenta uma guerra em seu território atualmente. Ainda assim, carrega as marcas de anos turbulentos, após a invasão liderada pelos Estados Unidos em 2003 e ampliada pelo posterior conflito contra o Estado Islâmico.

Em meio a essas realidades, a perspectiva de futuro costuma muitas vezes ser limitada. E é justamente nesse contexto que o futebol e a Copa do Mundo ganham uma dimensão que vai além das quatro linhas.

“Quando você tem sofrimento e incerteza todos os dias, o fato de existir uma seleção representando não apenas o esporte, mas a nação de uma forma geral, ajuda a amenizar o sofrimento cotidiano”, disse o professor de política internacional Tanguy Baghdadi ao 365Scores.

“Não apenas naquela velha ideia do futebol como ópio do povo, mas numa expectativa de que algo melhor pode vir pela frente. Quando você pensa na República Democrática do Congo, por exemplo, um país que vive um cenário de conflito dificílimo, uma classificação para a Copa passa a ideia de que existe uma versão daquele país que deu certo”.

É a versão da República Democrática do Congo que funcionou. É a versão do Irã que deu certo. É a versão haitiana que funcionou”, completa ele.

Ocupar o espaço alcançado pelas potências

Para Baghdadi, eventos esportivos têm uma característica particular nesse cenário: a seleção nacional funciona como um retrato do próprio país. Ela transmite uma imagem positiva da nação e reforça a percepção de que ela foi capaz de alcançar um espaço normalmente ocupado por potências com condições muito mais favoráveis.

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Os 26 convocados acabam funcionando como representantes simbólicos de seus países. Embora muitos sequer vivam no território que defendem, carregam consigo histórias, origens e vínculos com aquela realidade.

Jogadores do Haiti comemoram gol com torcedores – Foto: Chris Arjoon/Icon Sportswire via Getty Images

Por isso, a participação no Mundial ajuda a transmitir a sensação de que um futuro mais positivo ainda é possível.

“Quando a gente fala de República Democrática do Congo e Irã, que vivem conflitos exatamente agora, do Haiti, com problemas históricos, ou do Iraque, com tudo o que já passou, são países que têm uma necessidade de se verem com alguma perspectiva de futuro, e a Copa do Mundo é capaz de trazer isso”.

Outro elemento é uma certa ideia de unidade. São países que têm muita desconfiança dentro da própria população. No Iraque, por exemplo, você tem uma maioria xiita e uma minoria sunita.

Entre os jogadores, isso não importa: eles são todos iraquianos. Na República Democrática do Congo, você tem diferentes etnias e passa a existir uma noção de que alguma unidade é possível.

No Irã, um país dividido entre apoiadores e opositores do governo, a Copa também tende a trazer uma certa noção de unidade e consenso. É claro que isso tudo pode morrer assim que a Copa terminar, mas belas histórias ajudam, belas histórias surpreendem”, garantiu.

Um símbolo de pertencimento

Enquanto os problemas enfrentados por essas populações seguem sem perspectiva de uma solução imediata, o futebol ajuda a criar um senso de pertencimento em sociedades marcadas por divisões internas. Como exemplo, Tanguy Baghdadi cita a França campeã do mundo em 1998.

Para ele, aquela seleção passou a representar melhor a diversidade da sociedade francesa, especialmente através da figuria de Zinedine Zidane, filho de argelinos nascido em território francês.

“Quando você fala sobre um país em guerra, a tendência é enxergar sociedades fraturadas, marcadas por desconfiança e ressentimento. O futebol passa uma ideia de que é possível unir”.

“No Iraque, por exemplo, a quantidade de conflitos sectários foi enorme. No momento em que está todo mundo cantando o hino, carregando a bandeira e jogando pelo Iraque, não importa exatamente qual é sua religião ou origem.

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A tendência é enxergar o Iraque como um país que pode dar certo de forma unida, mesmo sem sucesso esportivo. O simples fato de ter uma seleção iraquiana em evidência já é capaz de despertar esse sentimento.”

Iraquianos celebram nas ruas de Bagdá a classificação para a Copa – Foto: Hawre Khalid/Getty Images

O impacto é temporário, mas a memória permanece

Apesar dos benefícios simbólicos que o futebol pode trazer a regiões afetadas por guerras e instabilidade, a realidade é que competições como a Copa do Mundo têm pouco poder para alterar, na prática, os problemas dessas nações.

O professor Baghdadi enxerga esse efeito como temporário, mas ressalta a capacidade do Mundial em construir memória e identificação.

“A memória de um país que conseguiu jogar unido, que conseguiu deixar diferenças de lado e que passou a ser mais conhecido pelo mundo. A Copa de 48 seleções oferece essa oportunidade de olhar para países que normalmente não observamos e saber um pouco mais sobre eles.

Isso não muda o cenário no curto prazo, mas pode fazer com que esses países sejam mais lembrados”, finalizou Tanguy Baghdadi.

Grupos da Copa do Mundo

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Lucas Dantas

Jornalista formado pela UNIFACHA do Rio de Janeiro, apaixonado por futebol e pela arte de contar boas histórias dentro e fora das quatro linhas. Também tento me arriscar na Fórmula 1.

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